A Mãe no Metrô

Ela olha para o nada. Talvez, para o vazio de sua vida. Tem o olhar evasivo, perdido no desespero. Os cabelos despenteados, amarrados num rabo de cavalo, sem maquiagem, completam o quadro de quem não teve tempo e nem o desejo de arrumar-se. Uma moça jovem e bonita, a não ser pela falta de brilho e energia.

Traz no colo uma criança. Um menino de aproximadamente dois anos, que dorme e assim contribui para a vazia viagem de sua mãe. Por alguns minutos, sentada no banco do metrô, a mãe tem a oportunidade de fazer o mundo desaparecer, de desconectar-se por completo da complicada realidade em que vive. De mergulhar em seus pensamentos, em busca de socorro, em busca de esperança.

Não existe conexão alguma entre mãe e filho. Fico a me perguntar se há alguma conexão entre ela e ela mesma. Tudo parece distante. Tudo parece silêncio. Está nitidamente cansada. Cansada da vida que leva, cansado do filho, cansada de si mesma.

O filho acorda. Chora um pouco.  A mãe permanece imóvel, não tenta consolá-lo. Não acaricia seu filho. Não fica brava. Não tem energia. É indiferente ao mundo a sua volta.

Por fim, como quem acorda de um sono profundo, tira da bolsa um pacote pequeno de bolachas e entrega ao filho. A criança distrai-se e a mãe pode voltar para a sua triste viagem.

Eu, sentada em um dos bancos quase a sua frente, consigo observar e imaginar a sua dor. Meu lado humano conecta-se ao dela. Faço uma viagem pelos momentos em que me senti triste e cansada, sem saber o que fazer, querendo comprar uma passagem de apenas ida para a lua e esquecer de tudo e de todos. Sim, sei como ela se sente.

Infelizmente, como por um estalo, este belo sentimento de solidariedade é interrompido quando a criança deixa cair uma bolacha no chão. Quem já experimentou utilizar o metrô de São Paulo, não sei se devo generalizar, mas ao menos as linhas que eu utilizo, sabe que a limpeza é impecável e aquela bolacha causava uma desordem completa.

A Senhora Perfeccionista que vive dentro de mim acordou e não deu trégua à mãe. Falava em minha cabeça: “Tudo bem que a vida dela não deve estar boa, mas organização é organização, não custa pegar a bolacha do chão”.

Fiquei um bom tempo chocada com a situação sob o completo governo da Senhora Perfeccionista. Ela não parava de arquitetar um plano de como dar uma lição de organização àquela mãe.  “Acho que vou passar e pegar a bolacha do chão”… “Melhor, vou pegar e entregar a ela e dizer algumas palavras de lição de moral…”. Mil alternativas passavam em minha cabeça. Eu tinha que dar uma lição à mãe.

Não sei explicar como, mas perto do meu desembarque, a Senhora Perfeccionista que estava toda vigorosa dentro de mim, perdeu sua força completamente para a Senhora Humana que também vive dentro de mim. “O que você está fazendo, Adriana?” … “Quem você pensa que é para sair por aí dando lições de moral?” … “Que tal se sensibilizar com a dor dela e parar de julgar?”.

Foi um golpe grande. Senti-me envergonhada. Na época estava lendo um excelente livro da autora Brené Brown, “A Arte da Imperfeição” que falava desta necessidade maluca, que muitos de nós temos, principalmente as mulheres, de querer ser perfeita em tudo.

É certo que somos capazes de dar apenas o que temos. Quando não aceitamos a nossa imperfeição, não aceitamos a imperfeição do outro e o julgamento entra em ação. Nestes momentos, perdemos o senso humano, machucamos, minamos a energia dos que estão a nossa volta, nos tornamos pessoas indesejáveis. E por fim, nos sentimos sozinhos, pois quebramos a conexão com o HUMANO que vive em cada um de nós.

A voz do metrô fala “estação Tamanduateí, desembarque pelo lado esquerdo do trem”. É a minha estação. Passo pela mãe e dou um meio-sorriso, um sorriso solidário de quem tenta dizer, também já me senti assim e desejo que passe. Ponho-me a caminhar, com um misto de culpa e de orgulho.

Digo para mim mesma: “Espero que tenha aprendido a lição. Você não tem de ser PERFEITA. As pessoas não têm de ser PERFEITAS.”

 

 

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A Senhorinha do Bingo

Numa manhã comum de quinta-feira, ouvi do Sr. Geraldo, o taxista que me conduzia para o trabalho, duas histórias interessantes, que me fizeram pensar…

Seu Geraldo, um senhor de aproximadamente 65 anos, cabelos brancos e olhos azuis, trazia no rosto o charme de quem na juventude era reconhecido como o galã das donzelas. Com simpatia e sem ser invasivo, “jogou a isca” fazendo um comentário sobre o tempo, como forma de avaliar se eu seria o tipo de passageira que estaria disposta a conversar, ou iria calada, absorta nos meus próprios pensamentos, sem dizer um “A”. Eu, de bem com a vida e disposta a “viver” de uma forma mais “humana”, dei todos os sinais de que poderia contar com a minha companhia.

Não demorou muito para que o Seu Geraldo movesse a conversa para o prazeroso mundo dos avôs. “Sabe menina, bom mesmo é ser avô. Você não precisa ter responsabilidade, ou se preocupar em educar. Quando chego em casa antes do almoço e meu netinho está lá, faço para ele um sinal de silêncio e quando a minha mulher dá as costas, eu dou logo a ele um chocolate, mesmo sabendo que irá estragar o almoço”. Mesmo no banco de trás, percebi o seu rosto se iluminar ao contar uma de suas travessuras, com o jeito de um garoto maroto, que revive o prazer da malandragem ao compartilhar a história.

O tráfego fluía bem e o Sr. Geraldo continuava a falar da vida, da época em que namorava sua mulher, de como o tempo havia mudado em relação as loucuras do mundo de hoje. Quando estávamos quase chegando, meu mais novo amigo taxista me entregou seu cartão de visita. “Olha menina, se precisar de mim, pode ligar, eu trabalho durante a noite. Muitas das minhas clientes são as senhoras que vão ao Bingo de madrugada”.

Para mim, aquela história era totalmente inédita. Eu sei que apesar das Casas de Jogos serem proibidas, há muitos Bingos clandestinos. No entanto, não conhecia ou imaginava que alguém que fosse frequentador assíduo. “É menina, é muito triste”, continuou Seu Geraldo. “Eu até dou razão a elas. Uma Senhorinha me contou que não tem o menor problema em gastar seu dinheiro em jogos. Boa parte do seu dinheiro vai para os remédios e ela faz questão de não deixar nada da herança para a nora ingrata que impede o seu filho de visita-la”. Percebi que Seu Geraldo comungava da mesma indignação de sua cliente. “Você acredita menina, que o filho dela tem de ir escondido a casa dela.” Quanto mais o taxista contava a história da Senhorinha, mais eu compreendia o que fazia com que pessoas como ela precisassem preencher o vazio do dia a dia, em um ambiente artificial e sedutor como as casas de jogos.

Seu Geraldo continuava a contar: “Ela sempre me fala, que se fica em casa, perde o sono, não aguenta mais assistir à TV e não tem ninguém para conversar. Pelo menos lá no Bingo, a noite passa bem rápido e quando amanhece, podia ir tranquila para casa”.

Duas histórias. Seu Geraldo, curtindo o netinho, encontrou um novo propósito. A Senhorinha do Bingo dedicou-se a um passa tempo para atenuar a solidão e o desespero de olhar para o relógio e não ver as horas passarem. Seu Geraldo trazia no rosto um sorriso suave, como uma criança que sabe aproveitar as alegrias de um momento. A Senhorinha do Bingo, pela descrição do meu amigo taxista, parecia trazer a amargura em seu semblante, a frustração de quem havia perdido a razão para se viver.

A vida não é um conto de fadas, todos nós sabemos disso. A felicidade, não é um estado de êxtase constante. Disso, também sabemos.

Com estas duas pequenas histórias, deixo aqui algumas perguntas para refletir:

Neste mundo agitado, cheio de compromissos, somos capazes de “parar” e curtir os momentos como Seu Geraldo tem feito com o seu netinho?

Será que temos em nosso ciclo de amizades ou de família, uma “Senhorinha do Bingo” a quem poderíamos doar um pouco de nosso tempo e mudar ao menos um capítulo de uma história de solidão?

É… vale a reflexão…

Um abraço a todos e uma boa semana “a la” Seu Geraldo. O taxi está livre…

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“Life is what happens to you while you are busy making other plans” Jonh Lennon

“Vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo outros planos” Jonh Lennon

Li recentemente um artigo sobre os principais arrependimentos que temos na vida.

A matéria começava com a história de um executivo que postergou ao máximo a sua aposentadoria, apesar do pedido da sua esposa que queria aproveitar a vida e fazer uma viagem pelo mundo. Depois de quinze anos de tanta insistência, ele prometeu aposentar-se em um ano. Ela um pouco frustrada, mas sabendo que agora faltaria pouco, passou oito meses fazendo planos até que três meses antes da data da aposentadoria, descobriu que tinha uma doença terminal e faleceu em dois meses. O marido demonstrou seus arrependimentos e o que faria diferente caso pudesse voltar no tempo.

Um depoimento chocante, que automaticamente nos leva a pensar: “E se fosse comigo? Do que eu me arrependeria?”. Fiquei um bom tempo pensando sobre o que é importante para mim. Pensei na minha família, amigos, no meu trabalho, nas coisas que gosto de fazer e por fim, cheguei a algo que resume bem como eu quero me sentir quando eu chegar ao fim da minha jornada. Quero olhar para trás com a sensação de “ter vivido”.

Uma frase simples, talvez muito óbvia, mas para mim, extremamente profunda e difícil de colocar em prática.

A convivência em sociedade tem feito intensos apelos que nos colocam em uma pista de corrida, nos fazendo saltar de um compromisso para outro, e servindo, na maioria das vezes, para darmos voltas em círculos, sem nos levar a lugar algum. Parece uma maratona sem fim, regida por uma ilusória busca pela felicidade.

Como o importante é correr, precisamos de velocidade para não perder tempo e fazer tudo o que queremos, ou melhor, que acreditamos que precisamos fazer, e dessa forma, acumular o maior número de experiências possíveis, com a crença de que a quantidade possa nos preencher.

A palavra de ordem é estar ocupado, fazer de tudo um pouco e principalmente estar pronto para responder “sim” às frequentes perguntas: “Você assistiu…?”, “Você leu…?”, “Você foi…?”, “Você conhece…?”, “Você tem…?”, “Você viu na internet…?” Procuramos saber e fazer de tudo, mas a quantidade não nos dá a sensação que buscamos inicialmente.

Em meio à correria, fazemos diversos planos, que não chegam a se concretizar, a meu ver, devido a duas razões principais. Uma delas por falta de tempo, e a outra, quando os nossos planos são completamente alterados em função das circunstâncias. Em ambos os casos, tendemos a permanecer no ciclo vicioso da frustração e culpamos os acontecimentos e os outros, por nossa vida sem sentido.

Como Jonh Lennon fala em sua canção Beautiful Boy, “a vida é o que acontece com você enquanto você está ocupado fazendo outros planos”. Planejamos uma viagem, um passeio ao teatro ou ao cinema, a leitura de um livro, o aprendizado de uma língua ou de um instrumento, procuramos passar mais tempo com as pessoas que são importantes, enfim, fazemos uma série de planos que não se concretizam, pois buscamos um momento perfeito para realização dos mesmos e não nos damos conta de que este momento não existe. Ou se é muito novo, ou muito velho. Ou se está muito apressado ou muito cansado. Ou se tem muito que fazer ou não se tem nada. O tempo perfeito não chegará jamais.

Para mim, “viver a vida” é ser capaz de perceber o momento de sair da pista de corrida, fazer o tempo “parar” e apreciar os momentos especiais. É concretizar os planos que julgamos importantes para nós e para as pessoas que amamos e ter a sabedoria de mudar de plano sempre que necessário.

É disso que eu não quero me arrepender, de ter perdido a chance de viver a vida em sua plenitude.

E você? Do que você não quer se arrepender? Não é possível voltar no tempo, mas ainda há tempo de não se arrepender.

Para finalizar, deixo aqui um poema de Mário Quintana,

O tempo

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê passaram 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado…
Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas…
Seguraria o amor que está a minha frente e diria que eu o amo…
E tem mais: não deixe de fazer algo de que gosta devido à falta de tempo.
Não deixe de ter pessoas ao seu lado por puro medo de ser feliz.
A única falta que terá será a desse tempo que, infelizmente, nunca mais voltará.

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Quero meu celular de volta!!!!

Comprei um novo celular, super-mega-blaster.

Lembro-me de como me senti ao efetuar a compra. Um mar de expectativas invadiu a minha mente. Comecei a sonhar acordada imaginando como seria maravilhoso usar todas aquelas funções que constavam no descritivo do produto. Afinal, esta é um das grandes funções das propagandas, incurtir na nossa cabeça que ao adquirir determinado produto, nos sentiremos felizes. E como queremos ser felizes, facilmente caímos na rede do consumismo.

Naquele momento, não havia a menor dúvida de que eu acabara de realizar uma excelente compra. Eu já tinha experiência com a marca e comprei o celular mais caro. A compra fora perfeita, consequentemente… me sentia perfeita. Esqueci-me que a incerteza é o habitat natural da vida, ainda que vivamos sob a esperança de escapar dela.

Bem, como dizem, “a alegria durou pouco”.

Primeiro dia de uso:

Saí de casa cedo para o trabalho e como estava muito frio, decidi ligar para casa e avisar o meu filho para se agasalhar melhor. Dirigindo, tirei o meu super-mega-blaster celular da bolsa para fazer a ligação. Abri o celular, tentei uma tecla, depois outra e mais outra. Resumindo: foi um sacrifício até que eu finalmente conseguira discar. Coloquei então o fone no ouvido e de repente o mesmo desligou.
D-e-s-i-s-t-i. Encostei num posto de gasolina, coloquei o chip no meu antigo celular. Ufa! Que alívio! Finalmente consegui falar, como nos bons e velhos tempos.

Coloquei o celular na bolsa e lá ele ficou pelo resto do dia.

Segundo dia:

Passei boa parte do tempo em reuniões e o usei apenas para fazer anotações. O teclado era simplesmente fantástico. E ainda tinha acesso aos principais aplicativos Office. Eu estava fascinada com tantas possibilidades.

Saí do trabalho e tentei fazer uma ligação. Achei um pouco complicado, mas logo me convenci: faz parte do processo de adaptação.

À noite peguei o celular para enviar um email. Comecei a escrever a mensagem e sem mais nem menos, mudou de tela. Conclusão: perdi tudo que eu havia escrito.

Fiz uma nova tentativa. Logo percebi que não dava para digitar deitada, pois além de pesado, o teclado era grande. Que saudade do meu bom e velho celular, que eu sabia de cor o posicionamento das teclas e era capaz de digitar sem olhar e com apenas uma mão.

Terceiro dia:

No caminho para o trabalho fui pensando: tenho de fazer as pazes com o celular e aprender a usá-lo, pois devo estar na fase de transição e não posso ser resistente a mudanças.

Uma forma um tanto quanto racional para lidar com o problema. De qualquer forma, adotei uma postura pacífica e bem intencionada.

O desconforto começou na hora do almoço quando eu não consegui carregá-lo no bolso. Tentei fazer uma ligação e tive muita dificuldade para localizar a lista de contatos. Por fim, por ser “touch”, cada vez que eu o posicionava na orelha para falar, o celular desligava.

Ao sair do trabalho, no carro, tentei fazer uma ligação e abrir um email. Não consegui nenhum, nem outro. Foi a gota d’água! Percebi que o celular estava literalmente me fazendo mal. Minha cabeça doía e eu estava extremamente irritada.

Eu me sentia empacada, como se a única possibilidade fosse me acostumar com o novo celular. Eu já havia passado por situações similares em outros momentos, quando me senti mal por alguma decisão tomada e mesmo assim não conseguia tomar outra decisão para acabar com o mal estar.

Passados mais alguns minutos, tentei sem sucesso fazer outra ligação. Neste momento, a frustração tornou-se insuportável. Até que no meio de um turbilhão de coisas passando pela minha cabeça, uma luz de consciência apareceu: eu não preciso disso, não vou mais usar este celular e estou disposta a arcar com as consequências. Se conseguir  devolver, ótimo. Se conseguir vender, bom. Caso nenhuma das alternativas anteriores funcionarem, paciência,  quem sabe encontro alguém que vislumbre alguma utilidade naquele aparelho. Não me importo mais.

Muitas vezes, o preço de reverter a situação é muito alto (em tempo, emoção ou dinheiro), e por esta razão, nos acostumamos com a situação e passamos a perceber as nossas decisões como irreversíveis.

Eu havia tomado a decisão errada e custei a aceitar. O preço de voltar atrás talvez pudesse ser alto demais. Mas o valor da minha tranquilidade não tinha e não tem preço.

Mesmo sabendo que um dos maiores motivos da infelicidade seja fazermos algo que não queremos ou não nos faça bem, muitas vezes é difícil tomar a atitude para mudar o curso do rio.

O lado bom da frustração é que o mal estar pode nos impulsionar a agir para tentar melhorar as coisas.

Nada é para sempre… Nem mesmo uma decisão…

Pense nisso!

Uma ótima semana,

Adriana

P.S. Essa história aconteceu comigo já faz algum tempo e o fabricante recebeu o celular de volta sem nenhum stress.

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No avião da vida, você é Piloto ou Passageiro?

Há alguns anos, ouvi de uma amiga, a metáfora do Piloto e do Passageiro. Desde então, tenho aprendido e incorporado alguns aspectos desta comparação.

E você? Já pensou sobre isto? Caso não o tenha feito, ou não conheça a metáfora, vou compartilhá-la aqui, junto com algumas perguntas e reflexões.

Eu o convido a analisar algumas de suas atitudes e ações sob a ótica do piloto e do passageiro.

Vale à pena a reflexão!

Todo avião, ou pelo menos todos os que levam passageiros, tem um piloto. Quando se chega a uma idade em que podemos tomar decisões, escolhemos em qual lugar desejamos sentar, no avião da vida, da carreira, do casamento, do clube ou associação que frequentamos. Vamos conhecer um pouco mais do que cada um desses papéis representa na vida das pessoas.

O passageiro desliga-se de si mesmo. Diz por dizer, ouve sem escutar.

Passa a vida andando com os sapatos de outras pessoas, o que lhe causa dor e muitos calos.

Tem receio de ser original, de pensar diferente do “rebanho”. Senta e se acomoda no banco da vida, ao som da música “Deixa a vida me levar”, de Zeca Pagodinho. Que por sinal, faz a vida do passageiro se tornar menos dolorida, tem até samba para cantar!

É ator coadjuvante, sujeito passivo. Sua frase típica é: “não há nada a fazer, só me resta aceitar”.

Acredita que nasceu para ser passageiro e que ser piloto é uma questão de sorte.

Tem sempre na manga uma desculpa para manter a sua posição.  Faz escolhas, mas estas são limitadas, pois sua condição restringe seu campo de atuação.

Sua responsabilidade é menor e culpa os outros, os pilotos, por suas frustrações.

Não sabe aonde quer chegar, prefere ser levado.

Passa pela vida, sem deixar a sua marca.

E o piloto?

O piloto é aquele ou aquela que assume a direção da sua própria vida. Deixa claro ao mundo quem é e quais são os seus valores.

Sabe aonde quer chegar, mesmo não sabendo exatamente qual o caminho a seguir.

Algumas escolhas são realizadas quando o céu está aberto e azul. Outras, quando há muita neblina. Mas, independente da condição, toma decisão, pois sabe que não decidir é uma decisão. A decisão de um passageiro.

Não tem medo de arriscar. Quando sente que fez a escolha errada, muda a direção e aprende com os erros.

Está sempre pronto a entrar no avião para mais um vôo. E a cada nova viagem, vivencia novas experiências, que lhe ampliam o sentido da própria vida.

Como escreveu Belchior e Elis Regina cantou “Viver é melhor que sonhar”.

Viver é adicionar experiências em sua biografia. Experiências que você, como piloto decidiu viver e transformar em sua história.

A diferença entre os dois?

O passageiro não arrisca, apenas sofre os efeitos das manobras arriscadas do piloto. O piloto sabe o momento de arriscar.

Durante o percurso, algumas escolhas são mais prováveis do que outras. O passageiro aceita o que lhe for mais conveniente. O piloto desafia as probabilidades.

O passageiro tem como principal lema “eu devo”. Preza pela segurança, pela comodidade em ter sempre o selo de aprovação social.

Já o piloto, tem em mente “eu quero”. É guiado pela liberdade e age com autenticidade.

Para o passageiro, a jornada não é importante. Muitas vezes, passa despercebida. Já para o piloto, o percurso é tão importante quanto a chegada.

O passageiro vive de esperança. Espera que o próximo dia seja melhor. Acha que a felicidade é coisa do destino, uma questão de sorte.

Já o piloto sabe que felicidade é uma escolha, não o destino. Busca alternativas para ser feliz. Cria condições para que seus sonhos e desejos se realizem.

Sentar no banco do passageiro, leva a um estado de repouso, um sentimento de tédio, de vazio.

Pilotar o seu avião, por sua vez, lhe traz uma sensação de “vida”.

Para concluir, preciso confessar que não há nada comparável a pilotar o seu avião, junto com um piloto que olha para a mesma direção, que possui os mesmos sonhos, que está lá, sempre disposto a trocar ideias sobre a melhor rota a ser seguida.

Além disso, compartilhar cada milha, cada momento, ao sabor do vento e da vida.

 

E você? Piloto ou Passageiro?

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Cadê minha mala?

Depois de longas horas de vôo, tudo o que queremos é passar o mais rápido pela imigração, pegar as malas e reencontrar a família que nos aguarda ansiosamente.

Pois é, a nossa história não foi exatamente assim. A começar pela fila para passar pela Polícia Federal: demorou mais de uma hora. Depois, a busca pela mala. Eram três. Pegamos uma na esteira, a outra, que estava jogada em um canto, e a terceira, a maior delas, a minha mala, nada! Por um bom tempo ficamos acompanhando a esteira, que rodava com as mesmas malas, na esperança de que o óbvio não se manifestasse. Por fim, nos conformamos e fomos preencher os formulários de perda de bagagem.

O dia passa e aos poucos, me dou conta do que havia dentro da mala e da probabilidade de jamais rever seu conteúdo. Sinto falta do meu travesseiro, que por mais ridículo que possa parecer, já me acompanha há alguns anos. Relembro a história de alguns objetos, e percebo que o seguro jamais compensará o real valor de cada um. A dor da perda torna-se inevitável.

Apropriamos-nos de muitas coisas e infelizmente até de algumas pessoas, como se elas fossem nossa propriedade, com o desejo de que permanecessem conosco para sempre. O pronome possessivo nos acompanha desde pequenos. O meu pai, a minha mãe, o meu lápis, a minha escola, o meu amigo, a minha casa, e com o decorrer dos anos, o meu trabalho, o meu carro, o meu marido, a minha esposa, o meu filho, e por aí vai.

Como diz o ditado popular: “nada é de ninguém e ninguém é de ninguém”. No entanto, mesmo sabendo que a garantia e a certeza são ilusórias, muitas vezes caímos na cilada da crença do “é meu” e sofremos quando ocorre a perda.

Já vivenciei algumas perdas, umas mais tristes, outras menos, mas nada tão dolorido comparado à de muitas pessoas que conheço e das notícias que assolam o mundo.

Colocar as nossas frustrações em perspectiva nos auxilia a dar o real valor à situação. No calor da emoção, nos concentramos apenas no fato que nos incomoda e muitas vezes, este mecanismo nos impede de achar uma saída para nos sentir melhor.

Sem dúvida, escrever estas linhas me ajudou a refletir e a enxergar o extravio da mala de outra forma. Como dizia um de “meus” professores: “a vida ensina… cabe a cada um de nós querer aprender…”

P.S. Enquanto finalizava esta crônica, recebemos a ligação de que a mala fora localizada, e seria entregue ao longo do dia.

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Ordem e desordem – a confecção da imagem ou a imagem da confecção

Recentemente fui a uma confecção comprar uniforme escolar. Estacionei em frente ao local e ao começar a subir a escada que levava à loja, senti uma certa confusão, uma sensação de entrar no lugar errado.

Percebo cada vez mais, que criamos expectativas, tanto para as pequenas, como para as grandes coisas. Neste caso, uma loja que fora indicada pela escola onde estudam meus filhos, eu criei uma expectativa. Esperava um padrão de organização e serviço, mas o que eu encontrei, foi bem diferente.

Na escada, fiapos de pano, linhas e muita poeira. Na sala, a minha confusão inicial cedeu lugar a uma completa indignação. Não acredito no que estou vendo! Numa rápida olhada vi: um sofá de courvin muito deteriorado, uma manta velha e bem encardida, um urso de pelúcia rosa, ou melhor, que algum dia teria sido rosa; uma estante velha com taças de vinho nas prateleiras, um vaso com flores plásticas, um carrinho de bebê, uma televisão muito antiga, um computador, e claro, uma estante com os uniformes.

Tive vontade de dar meia volta e ir embora, mas fiquei apenas em nome da comodidade, afinal de contas, eu já estava ali. Na sala, não havia ninguém. Após alguns instantes, uma senhora, uma das costureiras, surgiu de uma sala e me atendeu gentilmente.

Ela rasgou duas folhas de um velho caderno e colocou entre elas, um papel carbono. Esperei pacientemente enquanto ela anotava com muita dificuldade o meu pedido. Após anotar tudo, ela tristemente percebeu que havia posicionado o carbono ao contrário. Era preciso escrever tudo novamente. Eu procurei tranquilizá-la, pois se alguém tinha responsabilidade pelo o que estava acontecendo, este era o proprietário e não a costureira, que com toda a boa vontade procurava me ajudar.

Quando eu estava prestes a sair, não hesitei e perguntei para a senhora que me atendera: “Quem é a dona?”. A costureira mostrou-se ainda mais nervosa do que já estava, pois imaginara provavelmente, que o intuito da minha pergunta era fazer uma reclamação. Procurei tranquilizá-la, reconhecendo seu bom atendimento e ressaltei que estava apenas curiosa para saber quem era a proprietária. Mais calma, ela respondeu: “Ela não vem muito aqui, quem toca é a “fulana”, que foi levar a filha para tomar vacina. Mas os filhos da Dona estão sempre aqui”. E no final, para fechar com chave de ouro a minha indignação, ela disse: “Ela é Diretora de escola”. Não me aguentei e soltei: “Uau! Inacreditável!”. A costureira não entendeu o meu espanto. Despedi-me e fui embora.

Como alguém que mantém um negócio naquela bagunça poderia dirigir uma escola? Milhões de perguntas invadiram a minha cabeça. Para mim, o diretor de uma escola é antes de tudo um educador. Acredito que não se “dá” o que “não se tem”, assim, não se ensina o que não se pratica. Prometi a mim mesma, que jamais voltaria àquela loja.

No caminho para casa, fiquei imaginando como seria a sala de trabalho da tal Diretora, como seria sua casa, como ela se vestia, se arrumava, etc.

No mundo dos negócios é frequente ouvir: “Imagem é Tudo!”. A forma como nos vestimos, nos arrumamos, nos alimentamos, mantemos a nossa casa e o nosso ambiente de trabalho, dizem muito a nosso respeito.

Se saíssemos pelo mundo, com uma câmera, fotografando cenas do nosso dia a dia, teríamos uma composição de vários “flashes” da nossa vida, cujo significado, apenas cada um saberia dar. Uma cama desarrumada numa manhã de domingo, pode ser um convite para ler um bom livro embaixo das cobertas. A pia da cozinha repleta de louças para lavar, pode ser: “preferi curtir a conversa após o jantar”. No trabalho, a mesa cheia de papéis, pode significar “gosto de ter à vista tudo que preciso fazer”.

A maneira como nos apresentamos, nos comportamos e lidamos com o nosso dia a dia, diz respeito a cada um de nós. No entanto, o respeito pelo outro e por espaços comuns é fundamental.

Gosto de observar os famosos avisos de boa convivência, deixados principalmente no banheiro e nas salas de café dos escritórios: “Não jogue papel no chão”, “Dê descarga”, “Limpe a mesa depois de usar”, entre muitos outros exemplos, escritos por alguém que ficou louco da vida com a falta de educação das pessoas. Como forma de reduzir a revolta causada pela indignação, deixou avisos, na esperança de que seria compreendido.

Quando eu leio os avisos, sinto-me envergonhada por ainda estarmos em um estágio de aprendizagem de regras tão básicas para uma boa educação, e também por acharmos que a obrigação da limpeza é do outro, geralmente da mulher ou do faxineiro.

Não creio que as pessoas deixam de organizar o ambiente com a intenção de desrespeitar os demais. Como a desorganização não as incomoda, ou deixar o ambiente organizado não é um hábito, as pessoas simplesmente “não se ligam!” Em seu mundo, as coisas são assim. Não há uma ordem, uma organização primária. Isso também se reflete na maneira como as pessoas pensam a agem com outras coisas em suas vidas. Mas voltando ao aspecto ordem e arrumação, normalmente as pessoas estão concentradas em outras coisas e não percebem como “largam” o ambiente durante ou após o uso. 

Vejo isso quando levantam-se de suas cadeiras, empurrando-as para trás, seja no restaurante, em casa ou no escritório, e as deixam displicentemente sem arrumar… provavelmente imaginando que elas possuem vida própria e retornarão de forma autônoma para o seu local de origem. Ou quando comem e deixam os restos e utensílios sob a mesa, por vezes no chão, na expectativa de que algum serviçal limpe o local.

Os exemplos são inúmeros, basta-nos ver a quantidade de avisos e lembretes, dispostos nos locais públicos. 

Bom será o dia em que estes alertas não serão mais necessários. Aí sim, saberemos que o respeito aos lugares comuns foi incorporado ao nosso comportamento.  

Enquanto isso, você, eu e muitas outras pessoas, estarão indignadas com a falta de educação.  

É mais fácil questionamos os outros e não questionamos a nós mesmos. A Dona da Confecção, deixa uma mensagem para cada um que visita sua loja.  

E você, já se perguntou a mensagem que você passa?

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